|A – entrevistas/artigos.

Artigo:

De Conélio Pires a Kiko Dinucci: a vocação cronística da música de São Paulo.

Por: Rafael Galante para o site Culturaria (www.culturaria.com.br).

 
 

foto : Danil Mava/Folha Imagem

Empolgado com o novo disco do compositor Kiko Dinucci, que na minha humilde opinião, desponta como o grande nome da nova geração da música paulistana, resolvi escrever essa primeira coluna pensando nas relações entre o passado e o presente da crônica na música da paulicéia (como não poderia deixar de ser, já que se trata de um texto de um músico-historidor. Já peço desculpas aos leitores vanguardistas, mas o passado é a minha mania…).

Gostaria de ressalvar, porém, para que não fujam os ávidos por modernidades, que este texto dedica-se fundamentalmente ao entendimento do contemporâneo, do atual, só que pra isso gostaria de reavivar a memória musical da cidade, tantas vezes relegada ao esquecimento. Acredito assim, estar justamente me alinhando à geração do presente, que não abre mão de manter um pé no passado e outro no futuro.

Agora, deixando de lado os introdutórios para partir para os finalmentes… Convém falar de Cornélio Pires, o homenageado desse texto. Escolhi falar de Cornélio por acreditar que este autor não recebeu e não recebe até hoje todos os louros que lhe são devidos. Nascido na emblemática cidade de Tietê (que compõe com Piracicaba e Capivari o coração da cultura caipira), em 1884, o autor foi sem dúvida um homem muito à frente de seu tempo.

Ele é considerado o “inventor” da música sertaneja, porque foi sem dúvida o primeiro a divulgar nos meios de comunicação de massa da capital paulista a cultura musical do interior do estado.

Desde 1914 o autor circulava fazendo apresentações, até que em 1929 decidiu buscar as gravadoras da capital para gravar um disco de música caipira. As gravadoras cerraram as portas para um gênero que acreditavam que jamais faria sucesso no mundo urbano de São Paulo. Cornélio, então, toma uma decisão inédita pra época, decide gravar seus próprios discos, tornando-se o primeiro músico de selo independente no Brasil. Sua iniciativa resulta num enorme sucesso: a venda de mais de cinco mil discos de 78 rpm ( o que significa um ótimo faturamento pra época, ainda mais se tratando de um gênero até então desconhecido em disco). Cornélio passa a ser assediado pelas grandes gravadoras e numa atitude profética se mantém como músico independente até o fim da carreira.

Porém, o que traz Cornélio a esta coluna não é exatamente a sua relação com a música caipira, e sim seu trabalho como cronista. Cornélio é sem dúvida um dos primeiros músicos a tornar a crônica um eixo temático de seu fazer musical, uma rápida olhada em títulos como “anedotas norte-americanas e entre italiano e alemão”, “agitação política em São Paulo e cavando votos”, “a moda da revolução”, “o bonde camarão”, “o Zepelim” e “o Submarino”, deixa claro isso. Entendo que a diferença do tipo de música que aqui chamamos de crônica urbana para as outras seja justamente o fato dela surgir a partir dos conflitos provocados pela modernidade, suas contradições, angústias, traumas, a violência do progresso, ainda que o eu-lírico não seja necessariamente urbano, como no caso das composições de Cornélio.

É importante frisar que os teatros musicados (existentes desde o século XIX), também conhecidos como teatros de revista, foram fundamentais para a criação de um espaço de opinião pública condizente com uma crônica do cotidiano condimentada com alta carga de ironia e humor. Todos os autores posteriores foram também tributários, de alguma maneira, dessa tradição.

É impressionante pensar como a música de São Paulo é marcada pela crônica da modernidade, isso nos diferencia muito da música do Rio de Janeiro, ainda que essas questões também tenham tido eco por lá. Basta pensar, por exemplo, no nosso símbolo maior: João Rubinato, mais conhecido pelo pseudônimo Adoniran Barbosa. Quase todo o cancioneiro de Adoniran é cortado transversalmente por uma crônica da cidade e do progresso. O humor e a ironia sublimados pela sagacidade de Adoniran já eram a tônica de boa parte da obra de Cornélio Pires, assim como foi de todos os sucessores discípulos de Adoniran, como Paulo Vanzolini, Carlinhos Vergueiro, Eduardo Gudin e, mais recentemente, Itamar Assunção e as músicas do Premeditando o Breque, com “São Paulo São Paulo” e o irresistivelmente irônico verso “É sempre lindo andar na cidade de São Paulo”.

Quando Kiko Dinucci, constrói seu cancioneiro a partir de um vasto repertório aprendido das culturas tradicionais de São Paulo e o transforma em belas crônicas para nos dar mostras de suas angústias que surgem na megalópole paulistana, ele não está apenas demonstrando a criatividade da nova geração e sua capacidade de ler os dilemas contemporâneos, ele está se conectando diretamente a uma vastíssima tradição crítica formada por Cornélio Pires, Adoniran Barbosa e inúmeros outros artistas cronistas que não tiveram seus nomes aqui citados, mas que contribuíram decisivamente na formatação desse fazer musical que é a cara de São Paulo.

Entrevista:

JOE LALLY (ex-Fugazi)

Por: Arthur Dantas para o site maissoma

Joe Lally @ Livraria da Esquina - 2008

Joe Lally @ Livraria da Esquina - 2008

+SOMA: Mesmo que more na Itália atualmente, é difícil fugir desse assunto: como você enxerga a atual eleição para presidente dos Estados Unidos? Alguns músicos negros já disseram que temem pela vida de Obama caso ele se eleja presidente. O que você pensa disso?

Joe Lally: Eu fico feliz que eles digam isso. Não me sinto confortável ao dizer isso, posso estar errado, mas essa é minha reação imediata: mesmo só concorrendo, eu temo medo pela sua vida e pela vida de sua família [se refere à Barack Obama]! Me desculpe, mas essa é a grande questão sobre seres humanos, sabe? Os Estados Unidos é um país particularmente estranho… O que quero dizer é que as pessoas dos EUA permitem que um maníaco como George Bush fique no poder, arruine nossa relação com o resto do mundo, jogue todo o dinheiro que o país juntou fora, nos leve a sombra de se tornar um país de terceiro mundo ou algo do gênero… Vão permitir que tudo isso aconteça, mas se alguém é eleito e sua pele é de uma cor diferente, ele pode até ser assassinado! É uma visão horrível, triste e não sei como lidar com isso, o que não é nada bom. Sou apenas um músico tentando descobrir como tocar música, então minha opinião sobre a política mundial não deve ser levada tão à sério.

+SOMA: Não sei, mas acho que os Estados Unidos passam por um dos momentos políticos mais importantes desde que o Kennedy morreu. Seria muito interessante se o Obama ganhasse [Vale lembrar que nesta entrevista, Obama ainda disputava a vaga do Partido Democrata com Hillary Clinton].

Com certeza! Eu amaria isso, do fundo do meu coração e é o que precisa acontecer! Sei que ele vai ter dificuldades de governar o país da melhor maneira, mas gostaria que tocasse Black President do Fela Kuti se ganhasse… A questão é: qualquer um deveria entrar no governo e fazer algo a respeito. Não tô nem aí com a aparência ou de onde eles vêm. Pelo amor de Deus, tem um puta problema imenso para resolver! O país está sendo empurrado descarga abaixo e a maioria das pessoas simplesmente não fazem idéia do que está acontecendo. A América é enorme e meio que serve de modelo para o resto do planeta, e é um modelo terrível.

+SOMA: Você morou em Washington D.C. que é uma comunidade liberal, eu imagino…

Liberal? Não, ao contrário, lá é super conservador…

+SOMA: Digo, as pessoas que você convivia, os músicos e as bandas da cena…

Sim as pessoas com as quais convivi eram mais cabeça aberta, mais politizadas, sabiam o que estava acontecendo… Mas eu nunca faria parte de nenhum partido politico, porque nem eu nem meus amigos nos sentíamos representado por nenhum deles. Quero dizer, como podíamos representar alguém e como que alguém pode nos representar, entende?

Penso em um monte de coisas que soam estranhas para alguém comum, mas sei que sempre haverá alguém lá em cima manipulando os fatos, manipulando as pessoas… Tem tanta coisa errada! Por exemplo, New Orleans era uma cidade tão linda, uma das poucas cidades dos Estados Unidos que tinha uma personalidade. Quem já esteve por lá certamente concordará que não existia um lugar parecido com aquilo e o lugar foi inundado, arrasado, muitos habitantes morreram, casas foram destruídas, e até hoje não foram reconstruídas e ninguém liga porque os moradores lá não tem dinheiro. Que tipo de governo é esse que faz vista grossa a uma cidade que sempre foi tão importante? Sem falar a quantidade de cultura e música boa que saiu de lá. New Orleans sempre foi pobre, então para o governo… Não é nem um governo, é um negócio! Os Estados Unidos são um grande negócio que é tocado por pessoas que estão acostumadas a tocar negócios e isso é horrível.

+SOMA: Eu falei com um amigo de Washington e ele disse que não conhecia ninguém que houvesse votado em Bush e que era muito estranho para ele, porque vivia em Washington, o centro do poder nos Estados Unidos e ele só conhecia pessoas que odiavam o Bush.

Tenho familiares e amigos em Washington que gostam do Bush. Isso sim é bizarro! Mas nunca vou definir meus amigos por suas crenças políticas, isso não é tudo para definir uma pessoa. E são pessoas que você não acreditaria se eu contasse quem são…

+SOMA: Em um fórum de internet, li um fã dizendo “eu amo o Fugazi mas eu odeio esse essa política liberal deles”.

O que é essa política liberal? Que nossos discos não deveriam custar tão barato? O fato de não fazermos camisetas? Essas e outras coisas foram decisões políticas que tomamos, alguns podem não gostar das causas que apoiamos e ajudamos a levanter fundos, mas eram causas que não envolviam partidos, entende? Levantamos dinheiro para uma clínica médica que atendia pessoas que não tinham seguro-saúde, eu mesmo não tive por muito tempo e frequentava essa clínica, então ter a possibilidade de levanter dinheiro todo ano para essa clínica era ótimo. E se um amigo de outro país vinha me visitar e ficava doente ou tinha algum problema, era para lá que eu o levava… Apoiar uma clínica gratuita o liga a algum partido específico? Querer ajudar pessoas que não tem condições de pagar para serem atendidas é me comprometer com algum partido politico? Eu não compro esse argumento.

+SOMA: Eu imagino que, resumindo, a grande diferença entre democratas e republicanos é que os democratas dialogam e apóiam as minorias, como os negros, latinos, o feminismo etc. Já os republicanos são mais conservadores e dialogam com corporações.

Certo, isso faz sentido de certa forma, mas por outro lado eles não tem para onde ir então eles [minorias] acabam apoiando os democratas. Infelizmente isso não faz deles um partido de esquerda, eles na verdade são muito parecidos entre si. Os democratas dizem que não teriam feito todas essas coisas que a atual administração tem feito nos últimos tempos, arruinando as relações com o resto do mundo… Como é que alguém vai conseguir consertar isso? Talvez ajude imaginar que muitas pessoas ao redor do mundo estão esperando há muito tempo que alguma coisa aconteça e ficariam tão felizes de ver alguém diferente que digam “ok, vocês não são tão horríveis”.
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KIKO DINUCCI

Kiko Dinucci fala e toca em programa gravado no estúdio do Centro Cultural da Juventude. Clique aqui para ouvir e aqui para baixar esta edição especial da Radiola Urbana com sete faixas do disco “Pastiche Nagô” (2008) e outras três executadas ao vivo no CCJ.

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Locução: André Maleronka, Filipe Luna e Ramiro Zwetsch

Bloco 1:
1) “Roda de Sampa”
2) “João Carranca”
3) “Samba Manco”
4) “Padê Onã”

Bloco 2:
1) “Engasga Gato”
2) “Rainha das Cabeças”
3) “Mosquitinho de Velório”

Bloco 3:
1) “Partida em Arujá”
2) “Santa Bamba”
3) “Vias de Fato”

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Resenha:

DUO MOVIOLA na revista americana Down Beat de agosto/setembro 2009.

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Sobre a revista Down Beat:

Down Beat é uma revista americana dedicada ao jazz. Seu primeiro número foi lançado em 1935, em Chicago. O seu nome deriva da expressão musical “downbeat”, também chamado de “uma batida.”

Down Beat publica os resultados das enquetes anuais realizadas entre os seus leitores e críticos sobre uma grande variedade de categorias musicais. A Down Beat Jazz Hall of Fame inclui os vencedores das pesquisas feitas tanto entre os críticos como entre os leitores. Os resultados da enquete entre os leitores são publicados em dezembro e dos críticos de agosto.

Um das mais famosas colunas da Down Beat é a “blindfold test”, no qual um músico ouve uma série de gravações de outros artistas e tentar adivinhar qual os músicos que as acompanha. A média de acerto não passa de 50 porcento.

+ sobre o Duo Moviola

www.myspace.com/duomoviola

www.duomoviola.blogspot.com

Para shows e comprar o disco O Retrato do Artista Quando Pede.

www.desmonta.com

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Entrevista:

KIKO DINUCCI + DOUGLAS GERMANO

 (entrevista feita pelo o blog UNTUNED, 24.06.09).

Douglas Germano e Kiko Dinucci 01

(24 de junho de 2009)

UNTUNED – A formação musical de vocês é bastante diversificada. O Douglas, por exemplo, começou tocando em bateria de escola de samba, mas também se diz influenciado por artistas como Duke Ellington e Brahms. Como isso tudo interfere na hora de compor?

Douglas Germano – Ah, tudo ajuda. O samba tem uma concepção meio cristalizada que esses outros gêneros musicais ajudam a romper.

Além disso, existem letristas, como Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Cacaso, que fizeram sambas, mas raramente são considerados sambistas, porque o teor das letras ultrapassa esses limites cristalizados do samba. E são figuras que eu sempre admirei muito, é uma tremenda escola de letristas.

UNT – E você, Kiko, que também trabalha com quadrinhos, gravuras, cinema… Como é para você, como músico, lidar com essas outras formas de arte?

Kiko Dinucci – Na verdade, a primeira coisa que aparece são as idéias. E na hora a gente não pensa no formato que essas idéias vão ter – se vai ser uma música, um quadrinho… Depois é que a gente vê o que elas vão virar. Então, tem muita coisa que acaba não virando música, vira um texto ou uma imagem.

Douglas – Ou uma piada…(risos)

UNT – No trabalho de vocês, principalmente no Bando Afromacarrônico, dá para notar muita influência de raízes africanas, não só no nome da banda, como também no som, no ritmo e nas letras. Como vocês incorporaram esse elemento?

Kiko – Acho que, no fundo, a gente estava enjoado da mesma batida. O samba usa a mesma batida há 30 anos e não era assim antigamente. O samba, no início, foi marcado por uma evolução de ritmos, mas desde o Cacique de Ramos parece que todo mundo passou a tocar muito igual.

Douglas – Deu uma pasteurizada no som, no timbre do samba. Se você pegar os discos do Paulinho da Viola dos anos 70, o Zumbido, por exemplo… Cada faixa tem um arranjo diferente, ou uma afinação do surdo diferente. Aquilo era rico pra caramba. E com essa pasteurização, isso se perdeu um pouco.

Mas se você entra em contato com o samba, chegar nesse ritmo do candomblé é fácil, porque as coisas estão muito ligadas. E a gente faz esse tipo de música não é para contrariar ninguém. É porque a gente gosta mesmo.

UNT – Nos shows do Bando, vocês fazem muitas improvisações, como nas rodas de samba de antigamente?

Kiko – A gente improvisa sim, mas nossos improvisos são mais instrumentais. Tem mais a ver com o free jazz do que com o partido alto, na verdade. Não é um improviso ligado ao cancioneiro brasileiro ou ao choro, no sentido de estar fechado em uma determinada escala. Muitas vezes, a gente trabalha com escalas mais usadas no jazz.

UNT – Vocês acabam sendo influenciados um pelo outro, por trabalharem muito juntos?

Kiko – Sim. O Duo Moviola é isso, é um sendo influenciado pelo outro, é um tentando ser o outro. É uma declaração de amor.

Falta espontaneidade para essas cantoras brasileiras que estão brotando (Kiko Dinucci)

UNT – Mas qual era a proposta musical de vocês quando resolveram criar o Duo Moviola?

Kiko – O Moviola, na verdade, foi uma chance de fazer coisas que a gente teria vergonha de fazer em outros trabalhos. (risos)

Eu ficava indignado com o Douglas, porque ele fazia música para teatro há uns 15 anos, mas quando ele pegava o cavaquinho para compor outras coisas, esse universo do teatro não aparecia. No Moviola, ele pode fazer isso. E para mim é a mesma coisa, quanto ao cinema.

Douglas – A gente pôde criar uma zona neutra para experimentar tudo que a gente queria. Trancaram duas crianças num quartinho de brinquedos e a gente faz tudo que pode lá dentro. Mas é bem despretensioso. Na verdade, a gente só se diverte.

Kiko – E o pessoal acredita… (risos)

UNT – Por que é tão difícil para compositores e letristas conseguirem o mesmo reconhecimento e projeção das cantoras e intérpretes que volta e meia aparecem por aí?

Kiko – Ah, porque a gente é feio (risos).

Douglas – Eu sou careca, feio, velho… Não interesso de maneira nenhuma (risos)

Kiko – Se eu soubesse rebolar pelo menos, talvez até tivesse chance (risos)

Douglas – Depois da Madonna, tudo passou a ser muito imediato, e muito ligado à imagem. E o compositor normalmente não se preocupa com isso, ele está mais ligado às idéias.

Kiko – E é engraçado que no Brasil está despencando cantora da árvore. O que me incomoda, particularmente, é que essas cantoras têm uma síndrome de diva. Para elas, não basta ser cantora, tem que ter aquela coisa de Bethânia. Perdeu muita espontaneidade.

Há exceções, é claro.Existem dois cantores do mundo pop que eu admiro bastante por causa disso. Uma é a Björk. Ela pouco liga se ela é bonitinha ou não, ou se faz gestos ridículos. Ela simplesmente fecha o olho e faz. O outro é o Thom Yorke, do Radiohead. Ele tem uma presença cênica muito particular, não se porta como cantor. Às vezes, ele está lá corcunda, cantando, e é isso.

Falta espontaneidade para essas cantoras brasileiras que estão brotando. Mas acho que é uma coisa que vai passar. Tudo passa (risos).

UNT – Vocês acham que a música brasileira ainda está muito apegada ao passado?

Kiko – Totalmente. E a gente tenta lutar contra isso. A gente quer fazer o negócio mais contemporâneo possível, falar do celular, da internet. Na área de samba, a gente vê menino de vinte anos escrevendo samba igual aos compositores da Velha Guarda da Portela. “Tu foste…”, “amor de outrora…”. Já pensou o cara entrando na padaria do bairro dele falando assim? É um clássico também fazer aquelas sessões de mesa branca, ficar exaltando os defuntos. Deixa o morto em paz!

Douglas – As pessoas não conseguem se desvencilhar dos ícones. E isso tem muito a ver com as esferas de poder e os lugares em que elas se estabelecem. A maioria dos ícones mais antigos da música brasileira são cariocas, de quando o Rio de Janeiro era capital. A mídia toda estava ali, a imprensa, a Rádio Nacional. Depois, o negócio começou a vir para São Paulo, com a Record e tal. Daí, quando esse poder muda para Brasília, surge um outro movimento ali, que é o rock brasileiro. Hoje isso está mudando, com o MySpace e tudo mais.

Kiko – Aliás, acho que a produção mais insignificante do MySpace hoje é a carioca.

Douglas – E as pessoas têm medo de aceitar que a música de hoje não tem mais espaço para ícones. Como anda aparecendo muita gente ao mesmo tempo, as pessoas ficam com medo e vão buscar as coisas no passado. E também tem um pouco de preguiça das pessoas que detêm o poder, que poderiam mudar isso.

Se não existisse o MySpace, não sei se teríamos essa proximidade com o público (Kiko Dinucci)

UNT – E que compositores brasileiros contemporâneos vocês gostam?

Douglas – Eu gosto do Kiko! (risos) Tem o Everaldo ÉfeSilva também, que é um letrista fabuloso. Enfim, tem tanta gente boa.

Kiko – Existe hoje uma cena paulistana muito forte de artistas independentes ligados à música. Não sei se tem conteúdo nessa cena, mas tem uma movimentação, e isso já é válido. Há um maior número de pessoas, tocando em mais lugares. Está menos fechado do que antes. Isso não deixa de ser um fenômeno contemporâneo. Mas acho que ainda é muito cedo para falar que saiu daí algum grande compositor. A gente vai ter que esperar uns 20 anos para ver quem prestava e quem não prestava.

UNT – O que vocês acham que motiva o crescimento dessa atual cena independente em São Paulo?

Kiko – Acho que isso se deve muito ao MySpace. Se não existisse essa mídia, não sei se teríamos essa proximidade com o público.

Na época do rock nacional dos anos 80, por exemplo, ou até na época da vanguarda paulista, o público daqui consumia essas bandas que estavam próximas. Aí veio o Manguebeat, e o pessoal passou a consumir só o que vinha de Pernambuco. Até na MPB, os compositores dos anos 90 são todos nordestinos – Chico César, Lenine, Zeca Baleiro. E agora existe um público jovem que através do MySpace acaba descobrindo as coisas daqui, que estão na esquina. Aí elas falam: “Já que está perto, eu vou”.

UNT – A música “Retrato do Artista Quando Pede”, do Duo Moviola, nasceu de alguma experiência ruim que vocês tiveram?

Douglas – Sim, vem de uma experiência bem particular. A minha mulher, que é atriz e dramaturga, tinha escrito uma peça. Ela chamou uns amigos e montou o espetáculo. Estava pronto. Mas, e aí, onde vai apresentar? Não tem onde apresentar! Apresentamos para a família mesmo. É assim. Se você quiser fazer um trabalho com uma estrutura mínima, trabalhar com dignidade, você vai ter que conseguir apoio de alguma lei de incentivo – de preferência, como foi com o Duo Moviola, um prêmio em dinheiro, que possibilitou a produção do disco. Então pintou a idéia da música: “para você sobreviver de arte em Sâo Paulo, tenta o Sesc, tenta o PAC…”

Kiko – E acabou virando hino para a cidade. Teve repercussão, chegou à diretoria do Sesc, chegou ao Ministro da Cultura. Acabou virando um desabafo de toda uma classe. E a gente nem tinha essa intenção.

UNT – Vocês têm um disco com o Moviola e um disco com o Bando, certo? Que outros trabalhos vocês estão planejando para daqui em diante?

Douglas – Eu estou tentando fazer um disco meu já há uns dois anos. Algumas coisas já são velhas, mas não consegui terminar. Talvez termine este ano, com outras músicas.

Kiko – No Afromacarrônico, a gente está inserindo umas coisas novas aos poucos. No Moviola também sempre entra alguma coisa nova. Mas gravar é difícil, gasta muito tempo.

Douglas – E ainda está cedo para o Moviola. O projeto fez dois anos agora recentemente. Nesse período, já conseguimos gravar um disco, o que é legal, e raro. Mas estamos só começando. E as pessoas estão recebendo bem. Mas o Kiko com essa silhueta e eu com essa careca…(risos)

Para baixar músicas e assistir aos vídeos do Duo Moviola, clique aqui.

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Entrevista:

KIKO DINUCCI + SÉRGIO MACHADO + THIAGO FRANCA

 (por Mateus Potumati para o site +soma, 21.07.09).

Kiko Dinucci, homem-projeto por vocação, necessidade e excesso de criatividade, está de projeto novo. No começo do mês, seu trio novo com Thiago França e Sérgio Machado (que por enquanto assina como Kiko Dinucci Convida) fez uma apresentação mágica no Espaço +Soma. Quem viu, sabe que the shape of samba to come é talvez a forma mais adequada de definir o som que eles estão esboçando.

A Desmonta finalmente liberou um vídeo da apresentação e você pode ver com seus próprios olhos, se não esteve aqui no dia. Na sequência, o Kiko falou com a gente sobre a música do vídeo e o projeto.

Essa música que ainda tá sem nome no YouTube, e isso deve ter a ver com o fato de a parceria ser tão recente. Fala um pouco sobre ela e sobre a parceria.

Essa música é minha e de Douglas Germano. Na verdade ela chama “O Homem do Saco” e tem uma letra. Mas aqui temos uma versão instrumental bem diferente, que eu batizei como “Iya Lóyì” (“Mãe da Vertigem”). É uma referência às Iyami Oxoronga, as mães ancestrais, que estão entre as entidades mais poderosas da cosmogonia yoruba. Ela simboliza a sabedoria e o poder feminino, e a música tem esse nome porque a vertigem é um dos domínios delas, bem como a menstruação. A música passa esse clima, creio eu.

Como nasceu o repertório? Tem espaço pra improviso, mas também há muitos temas bem arranjados e definidos.

O repertório nasceu pra desenvolver alguma coisa no segmento instrumental. Os temas aparecem mais como standards, mas não nos prendemos muito na estética jazzística porque somos brasileiros e brasileiro nunca vai tocar jazz como os americanos. A formação original desse time conta com o trompetista Rob Mazurek, e talvez ele seja o elemento mais jazz dessa história. Quando ele não está no Brasil tocamos nesse formato de trio. Tentamos sempre manter certa brasilidade nesse trabalho. Por outro lado tenho birra com o pensamento de música instrumental no Brasil, tenho notado menos compromisso com a criação, invenção, e muito mais preocupação com quem toca mais rápido, ou quem copia melhor esse ou aquele. Tem um povo muito chato, criou-se um padrão música instrumental brasileira, isso é besteira.

O trio tem bem aquela cara de três amigos fazendo um som, o que é bom porque a pegada é bem descontraída e orgânica, mas por outro lado a gente pensa até quando vai durar. Vocês têm algum plano de médio-longo prazo? Gravar disco, fazer mais shows etc.?

Sim, temos vontade de tocar essa amizade/som pra frente. Estamos pensando em gravar e fazer vários shows pra amadurecer a idéia, porque temos ciência de que estamos ainda procurando [nosso estilo]. Acho que esse projeto ainda vai melhorar muito. Sou mais ligado à canção e pensar nesse formato é novo pra mim, é um abismo, não sei onde vai dar, e é justamente isso o que me estimula a seguir em frente. Mas o mais legal é tocar com amigos que eu admiro. Me sinto privilegiado de trocar experiências com essas pessoas.
Por: Mateus Potumati

Para escutar, assistir aos vídeos, baixar mp3 de Kiko Dinucci, clique aqui.


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